| 16/02/2008 |
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Helena, Quando comecei a ler a sua penúltima carta, quase acreditei Notei que quando o assunto é futebol, os homens falam a mesma língua. É um momento contraditório em que algumas diferenças anestesiam-se e outras se impõem como um monumento. Na roda de conversas, o mundo real fica do lado de fora. Os conhecidos desentendidos se identificam e os amigos confidentes viram inimigos. Não importa o repertório sócio-cultural, durante o jogo a linguagem é a mesma e, de preferência, cheia de palavrões expressivos. Não existe desigualdade que não seja o valor remetido às torcidas. É só o que vale. Os companheiros de grupo se atribuem as características remetidas ao time. Pronto, somos parte de um conjunto, comecemos a partida... Um comportamento intrigante é a identificação que se cria com uma origem não muito bem entendida. O que lhe faz pensar que você pertence ou não a um time? Na família, o sobrenome. Na empresa, a admissão. No grupo de amigos, a aceitação. E, no time, uma auto-inclusão? E tem mais: é uma relação com expressiva durabilidade e ainda por cima conservadora de fidelidade. O que Bauman diria sobre os torcedores fanáticos Se a identificação é mal-explicada, me clareie sobre o objeto de origem. O que é a essência de um time já que não existe permanência de jogadores, diretoria, filosofia... Será que o importante é o nome, o percurso, as cores da bandeira? Onde está a essência? A identidade de um time é a personificação das idéias que giram em torno dele mesmo que aquilo não se aplique. Ou então se aplica em um esforço para comprovar que tais características são naturalmente pertencentes a ele... E tudo isso cria amor e sofrimento. O torcedor acompanha, vibra e fica triste, ainda que o resultado da disputa não afete em nada realmente a sua vida. Talvez, toda esta identificação seja algo a que nos apegamos para ganhar ou para perder... Uma maneira de disputar, se frustrar ou fazer história de uma forma protegida, sem entrar na briga, sem machucar a pele de verdade... Será que é isso? Um beijo! Ana |
Querida Ana,
Bom receber notícias, bom ler sua poesia: o amor em sua aparência e o amor em sua essência, gostei muito.
Fevereiro começa cada vez mais quente, com trovoadas nos fins de tarde, o que é bom para a terra – como diz minha mãe – e ruim para o trânsito, como mostra minha experiência. E nesse tempo de chuvas freqüentes, minha sombrinha barata está sempre na mochila ( ando de mochila agora...), assim como a garrafa de água, o lanche da tarde, livros e o caderno. Além da mochila, uso também sapatos baixos, que me auxiliam a transitar e a trabalhar na escola com os pequenos. Todos os dias, faço uma caminhada até o ponto de ônibus, transporte de ida e volta. Confesso, Ana, que adoro andar por São Paulo seja de ônibus ou a pé. Apesar dos ônibus cheios e da possibilidade de ir em pé por todo o trajeto, são nesses momentos de ir e vir que participo da vida da cidade. Pelo menos isso, já que me sinto completamente fora da participação das decisões dos rumos no que se refere aos assuntos da cidade ( por exemplo, nesse final de semana a passagem aumentará para R$2,40 e sei que não tenho voz para contestar ou pelo menos para entender as justificativas reais desse aumento). Mas volto às ruas, Ana. Enquanto caminho por elas, observo as tantas pessoas que passam, tropeço em calçadas mal conservadas, vejo quais tipos de comércio e serviços são oferecidos em meu entorno. Também sinto o cheio do pastel na feira (mas são raras as vezes que paro para comer), ouço o barulho incessante dos carros.
Constatei fenômenos interessantes nessas andanças. Um deles é que um número cada vez maior de indivíduos, caminham com o fone de seus tocadores de música no ouvido ( MP3, MP4, Ipod). No ônibus, o porcentagem é muito grande ( vou chutar uns 30%), e no metrô também. Acho curioso perceber que cada indivíduo desses vive a cidade como se fosse um clipe, que cada um tem uma trilha sonora específica ( e cuidadosamente escolhida) para momentos tão corriqueiros. Poderíamos até pensar que esse fenômeno ( pois é um fenômeno!) pode ser prejudicial, pois as pessoas se comunicam menos e parecem alienadas do que se passa ao redor...mas ainda não sei. Por enquanto, acho tudo isso muito bom e prazeroso.
E com você, está tudo bem? Já que falei tanto sobre sentir a cidade, depois te conto melhor minha experiência de ir ao show do Projeto Religare (com Fabiana Cozza e Ney Lopes), foi uma alegria sentir as pessoas e o samba, até de viver, por uma noite apenas, o sentimento de comunidade.
Como sempre, termino a carta a esperar ansiosa por suas palavras.
Um grande beijo,
Helena.
| 11/02/2008 |
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Helena, Em primeiro, os conselhos que me deu foram muito úteis. Obrigada pela generosidade em dividir o seu tempo também comigo. Estou finalizando a sua carta que é uma resposta à sua última mensagem e, que, inclusive fala sobre um tema bastante incomum em nossas conversas: o futebol. Mas, como ainda não terminei e também não quero me fazer ausente segue uma poesia. Um beijo. Amortal O nosso amor é tudo aquilo que não existe, São as fotos e os olhares ao redor, Nos vestimos de luxo e beijamos com beleza Esperando os estalos das palmas Que faíscam felizes de inveja Bem me quer? Mal me quer? Quer? Ou encena em um teatro decadente Onde as falam são confusas Não pagam para entrar Mas ao sair deixam corações maciços de pedra Saem com máscaras de sorrisos As lágrimas são colírios Deixando assim intacta a maquiagem Eu sou melhor no teu espelho Tuas palavras fazem vangloriar A minha imagem perdida na selva |
| 19/01/2008 |
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Olá Helena, Que bom receber notícias, já estava sentindo falta... Estive pensando muito nisso que você falou. Tenho meditado quase todos os dias em busca de respostas que vem de dentro. Quero ficar mais próxima da minha intuição e mais protegida das pressões externas. E, na verdade, tudo isso para ter uma existência mais autêntica, como você me deu a idéia... E que idéia perturbadora: buscar ser autêntico! Talvez seja impossível rastrear o que eu realmente penso, como um dia você escreveu: estas idéias são minhas? O que faço para ser diferente baseia-se no oposto do modelo dos “iguais”. E então, já não é autêntico, é um avesso provocativo. E parece ser tão natural, todos em busca do mesmo estilo de vida. Não lhe parece intrigante pensar que a idéia de sucesso se traduz em um mesmo modelo para todas as pessoas? Sim, urbanos e do campo, jovens e velhos, liberais e conservadores. Oras, não existem mais em nossa sociedade regras explícitas ou documentadas sobre isso: para o casamento, a pertença da mesma classe; o trabalho e o acúmulo de capital como eram pensados pelos burgueses. Ou existem? Em quais discursos e princípios elas estão? E o mais provocativo: por que todos aderem? E estou falando isso visto que também sinto a tua angústia. Do imediatismo. Do imperativo do sucesso. É a grande encruzilhada do nosso tempo. Muitos vivem a este modo como se fosse o único e concebível. São tão apegados a estes princípios que não podem distanciar-se de tal realidade para fazer uma análise critica. Estão dentro. Alguns poucos a renegam completamente. Estes vivem à parte, quase marginalizados. São vistos como fracassados. E alguns outros vivem no limiar. Como você, sente uma imensa vontade de ser livre, não se relaciona com o tempo como a maioria, não prioriza o futuro em vez do presente, não acha que o que acabou não deu certo. Contudo, ainda assim não consegue manter estes princípios. Quando é guiada por eles é chamada de fraca. E como no limbo, oscila entre dois paradigmas. Ensaia seguir o que sente, mas é difícil. O outro fala ao ouvido. Ainda não tenho respostas para isso, nem como atenuar os teus sentimentos. Vamos seguindo, quem sabe... Beijos Ana |
São Paulo, 17 de janeiro de 2008.
Olá Ana, tudo bem?
Espero que tenha feito boa viagem e que o ano de 2008 seja muito próspero. Comecei janeiro com uma pausa e posso até dizer que foram dias de folga e de mudanças também. Saí da Editora, depois de ter pensado muito no assunto. Acho que você sabe que tenho mania de sofrer por antecipação (e isso não é bom...), durante um mês fiquei imaginando como iria sair e afirmando e reafirmando as inúmeras razões. Passei a virada do ano apreensiva, ensaiando os motivos e as despedidas. Mas no fim, foi tudo muito tranqüilo. Despedi-me de todos, agradeci a quem devia e fui. No dia seguinte, minha cabeça e meu corpo já não estavam mais lá. E após isso, meus dias foram livres. Cozinhei bastante, assisti a muitos filmes no cinema e no vídeo, passei longos tempos com minha mãe, mas apesar desses momentos de sossego, tive dor de estômago e sintomas do fígado, resquícios da má alimentação de fim de ano e do estresse.
Comecei o que havia planejado para esse ano. Enviei muitos currículos para as escolas, fiz algumas entrevistas e deu certo ( ainda bem...). Vou trabalhar em uma escola ( um pouco longe daqui), meio período, cargo modesto, salário também. Assim, vou ter a parte da manhã para estudar. Não tem sido fácil, porém. A impressão que tenho é que vivemos em uma sociedade em que não podemos parar um minuto, assim como os fatos, como as notícias, como minha cabeça às vezes. E a idéia do imediatismo de todas as coisas e do imperativo do sucesso me incomoda, isso é ainda pior se esses dois casos estão interligados e o sucesso é visto como algo fácil, rápido e bom ( veja aí o Big Brother, veja aí os livros de auto-ajuda). E a despeito de tudo isso, o que posso dizer a você é que começo o ano com paciência e com o pensamento de Guimarães: "...o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".
Queria dizer também que é muito bom ter alguém para escrever ( como você mesma comentou na carta) e que aguardo notícias.
Um grande beijo,
Helena.
Olá amiga,
Já é fim de ano, bom momento para escrever a um amigo e bom demais ter um amigo para escrever. É estranho escrever sobre as próprias coisas. Quando a gente fala, conversa, a exposição parece ser menor. O assunto parece pertinente. Mas, colocar no papel estas reflexões e esquisitices do dia-a-dia parece falar de algo com pouco valor, como se o papel pedisse maior importância ao que é escrito e como se o que a gente sentisse sobre as coisas pequenas fosse bobeira. É talvez você esteja achando meio confuso o que quero dizer, talvez nem eu saiba. Ah, outra coisa, sei que você vai achar que estou me colocando pouco nesta carta, que estou escrevendo não sobre mim, mas simplesmente para o outro. E nisto você tem plena razão, não sei se falo de mim ou sobre o que você quer ouvir. Nossa, que loucura... eu imaginando o que você vai achar sobre algo que ainda nem leu. Mas, quando você me responder, e se colocar mais, acho que ganho confiança e faço igual.
Agora mesmo o meu coração deu um sobressalto e fui ver o estado de saúde do meu gato. Ouvi um barulho, mas era a madeira da cortina batendo no batente da janela. Se eu descrever a minha casa agora, vai parecer imaginação, você vai achar que montei um cenário para a minha carta ficar mais interessante. Agora são seis horas da tarde, quase em ponto, seis e cinco. As janelas estão abertas, bate um vento leve que faz os tecidos balançarem, o sol fraco, apesar de dezembro, ilumina as peças e domina o silêncio. Um silêncio triste. Acho que triste e feliz. Exausto e realizado. O meu gato está muito doente e parece que tem mais alguém aqui, às vezes um objeto reflete, um raio de luz brilha.
Estou me sentindo muita culpada por ele estar assim. Eu queria ter feito o melhor e me pergunto: onde foi que eu errei? E percebo como sou egoísta. Por que eu preciso sempre achar que a culpa não foi minha? Que horrível esta história de culpa que colocaram em nossa cabeça... Agora isso não muda nada.
E mais uma vez percebo que só nestes momentos de dor a gente pára e pensa. E aí essa conversa romântica e repetida me parece chata e infantil. O tal discurso de pensar na vida, trabalhar menos, ser mais feliz...
Mas, se isso é infantilidade, a maturidade o que é?
Por que me parece bobo colocar neste papel a minha vida? O que é valoroso então?
E neste momento de tristeza exausta, eu sou capaz de sentir mais do que antes. De querer ficar com a minha família. De querer encontrar a minha paz. De ter um momento no dia em que eu me encontre e saiba o que eu quero, sem me perder na palavra alheia.
Natal é muito bom e eu adoro este clima. Quero entrar mais nele. Preciso resgatar o prazer. Outro dia me disseram que isso é coisa da infância. Eu não acho. Mas, que seja...
Eu quero ser feliz e, se tenho esta vida, vou fazer dela algo que valha a pena...
Lembra? Foi você que me disse isso...
Feliz Natal e um Ano Novo cheio de luz. Se o meu gato não se recuperar rápido, tem chance de eu passar o Reveillon com você. Deixar a viagem paga, a pousada, tudo por amor, afinal, o que somos sem ele?
Beijos
Ana
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